O Peso do Hexa: A Seleção de Ancelotti, a Redenção de Raphinha e o Último Ato de Neymar

Vinte e quatro anos é tempo demais. Para o país do futebol, não ganhar uma Copa do Mundo desde o penta em 2002 não é apenas uma curiosidade estatística, é uma ferida aberta. A gente se acostumou a chegar em todos os torneios nas últimas duas décadas com pinta de favorito, apenas para voltar para casa com as malas cheias de frustração. Mas agora, a caminho do Mundial de 2026, o roteiro ganhou um protagonista inesperado no banco de reservas: Carlo Ancelotti.

Sendo o primeiro estrangeiro a comandar a Seleção Brasileira, o italiano desembarca com um currículo de quem já ganhou tudo o que era possível no futebol de clubes e com aquela tradicional expressão serena de quem nunca parece perder o sono. A missão dele é clara e passa por quebrar esse jejum incômodo. E com a lista final dos 26 convocados anunciada numa cerimônia de gala no Rio de Janeiro, o caminho do Brasil no Grupo C — onde vai enfrentar Marrocos, Escócia e Haiti — já está oficialmente traçado.

A Nova Hierarquia do Ataque e os Descartados

Montar esse quebra-cabeça não foi brincadeira. O próprio Ancelotti fez questão de ressaltar o nível insano de concorrência que existe do meio para frente no futebol brasileiro. Com o seu habitual tom diplomático, o treinador confessou que foi extremamente difícil fechar o grupo e lamentou ter que deixar de fora peças que participaram ativamente do ciclo.

Quem sentiu o peso dessa concorrência foi João Pedro, do Chelsea. O atacante de 24 anos era visto por muita gente como nome certo para sua primeira Copa, após ganhar rodagem internacional durante a preparação. Na hora de bater o martelo, porém, o “Mister” preferiu confiar em nomes mais pesados e em outras opções para o setor, garantindo os passaportes de Vini Jr. (Real Madrid), Rayan (Bournemouth) e Igor Thiago (Brentford).

Raphinha: De Aposta a Realidade

Se na ponta de lá houve dúvidas, do lado de cá, Raphinha é uma certeza absoluta. O ponta vai para a sua segunda Copa do Mundo vivendo, indiscutivelmente, o seu auge. É um cenário bem diferente daquele do Catar em 2022. Naquela época, pouco depois de desembarcar no Barcelona, ele ainda tentava se provar e cavar seu espaço no mais alto nível antes da fatídica eliminação para a Croácia nas quartas de final.

Hoje a história é outra. Raphinha deixou de ser aquela contratação questionada pela torcida catalã para se tornar o dono do ataque, assumindo inclusive a braçadeira de capitão. Mesmo lidando com alguns problemas físicos chatos ao longo da campanha, o cara simplesmente engoliu a bola sob o comando de Hansi Flick. Faltando só um jogo para fechar a temporada 2025/26, os números não mentem: são 21 gols e 8 assistências em 33 partidas, vitais para botar no bolso as taças de La Liga e da Supercopa da Espanha. Ele chega muito mais cascudo, confiante e ciente da responsabilidade que carrega como uma das principais armas letais do Brasil.

A Emocional e Inevitável Chamada de Neymar

Ainda assim, a gente sabe que o assunto principal de qualquer mesa de bar nos últimos meses era um só: a situação do Neymar. Até a divulgação da lista, o maior artilheiro da história da Seleção (79 gols, vale lembrar) era uma incógnita. Ele não vestia a amarelinha desde que arrebentou o ligamento cruzado anterior do joelho contra o Uruguai, lá em outubro de 2023. Depois da cirurgia e de algumas complicações no meio do caminho, o camisa 10 deixou o Al Hilal da Arábia Saudita e voltou para o seu quintal, a Vila Belmiro, para defender o Santos.

Neste ano de 2026, pelo Peixe, ele entregou seis gols e quatro assistências. É o suficiente para uma Copa do Mundo? A decisão do Ancelotti passa longe de ser puramente tática ou pautada em métricas frias de desempenho recente. A convocação do Neymar aos 34 anos de idade para o seu quarto Mundial (ele esteve em 2014, 2018 e 2022) atende a um chamado mais emocional e de vestiário. Nomes como Casemiro, o próprio Raphinha e até o argentino Lionel Messi fizeram uma espécie de lobby público para que ele estivesse na lista. O grupo abraça o cara.

Durante o anúncio, Ancelotti bancou a escolha com firmeza, garantindo que o craque melhorou muito seu condicionamento físico e vai ser uma peça importante. Futebol de torneio curto tem dessas coisas, a lógica às vezes precisa abrir espaço para o talento puro. Querendo ou não, ele ainda é o maior talento individual que produzimos nos últimos quinze anos.

O fato é que esta será a última Copa do Mundo de Neymar. O tabuleiro está montado com a frieza tática do treinador italiano, a letalidade de Raphinha e de Vini Jr., e o peso de um camisa 10 buscando redenção em casa de encerramento de carreira. Só nos resta descobrir se Neymar vai desembarcar na América do Norte para fazer uma figuração de luxo ou se ele tem futebol suficiente para assumir o protagonismo uma última vez e, enfim, trazer a taça de volta para o Brasil.

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