O Paradoxo Climático: Recordes de Calor Global e os Extremos Gelados da Terra
Os dados mais recentes divulgados pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S) da União Europeia traçam um cenário alarmante sobre o futuro ambiental do planeta. Embora existam regiões na Terra onde o frio desafia a própria biologia, a tendência global aponta inequivocamente para um aquecimento acelerado. O ano de 2025 trouxe uma notícia agridoce: não foi o ano mais quente já registrado, mas garantiu o terceiro lugar no pódio, ficando por uma margem ínfima atrás de 2023. O título de ano mais quente permanece com 2024, que registrou 1,6°C acima da média pré-industrial.
O que preocupa os cientistas, no entanto, não é apenas um ano isolado, mas a consistência dos dados. Os últimos três anos superaram a marca crítica de 1,5°C de aquecimento global, e os últimos 11 anos foram, consecutivamente, os mais quentes da história. Samantha Burgess, diretora adjunta do C3S, enfatizou que esse triênio se destaca drasticamente de qualquer período anterior, evidenciando uma trajetória impulsionada pelo aumento dos gases de efeito estufa. Se essa curva não for alterada rapidamente, o mundo caminha para violar o Acordo de Paris — que visa limitar o aquecimento a 1,5°C — possivelmente até o final desta década, muito antes do que foi previsto nas negociações originais.
Desafios Políticos e o Cenário Internacional
A gestão dessa “ultrapassagem inevitável”, como descreveu Carlo Buontempo, diretor do C3S, tornou-se ainda mais complexa com o cenário político nos Estados Unidos. O retorno da administração Trump impôs novos obstáculos à ação climática global. Há apenas uma semana, o presidente anunciou a retirada dos EUA não apenas do Acordo de Paris, mas também da convenção climática sob a qual o tratado foi negociado, além de outros acordos correlatos, intensificando o isolamento americano nas pautas ambientais.
Os Redutos do Frio Absoluto
Apesar desse aquecimento sistêmico, a Terra mantém bolsões de frio extremo que parecem pertencer a outro mundo. A definição de “lugar mais frio” varia dependendo se consideramos áreas habitadas ou picos desolados. Em termos de ocupação humana permanente, o vilarejo de Oymyakon, na Rússia, detém o título. Originalmente um ponto de parada para pastores de renas hidratarem seus rebanhos em fontes termais, o local registra temperaturas médias de 50°C negativos.
Já no continente americano, o destaque vai para o Denali (anteriormente Monte McKinley), o pico mais alto da América do Norte. Com mais de 6.000 metros de altitude, a montanha apresenta uma temperatura média de -10°C, mas o verdadeiro perigo reside nos ventos. Entre 1950 e 1969, embora a temperatura do ar tenha chegado a -73°C, a sensação térmica provocada pelas rajadas de vento atingiu brutais -83,4°C, razão pela qual apenas metade dos alpinistas que tentam o cume obtém sucesso.
Antártida: O Coração Gelado do Planeta
Contudo, é na Antártida que encontramos os verdadeiros extremos do planeta. A Estação Amundsen-Scott, no Pólo Sul, vive sob um regime de seis meses de luz e seis meses de escuridão total. Lá, a temperatura mais alta já vista foi de -12,3°C no Natal de 2011, enquanto a mínima chegou a -82,8°C em 1982.
Ainda mais impressionante é a estação de pesquisa Vostok, estabelecida pela antiga União Soviética. Além de ser um dos lugares mais secos da Terra — recebendo apenas 20 milímetros de precipitação anual, exclusivamente em forma de neve —, a estação registrou a temperatura do ar mais baixa já medida diretamente por instrumentos no solo: -89,2°C em julho de 1983.
Recentemente, a tecnologia espacial sugeriu que pode haver lugares ainda mais frios. Dados de satélite coletados entre 2004 e 2016 nas regiões de Dome Argus e Dome Fuji, na cordilheira Antártica, indicam que as temperaturas do ar podem cair para cerca de -94°C. Pesquisadores acreditam que, sob condições ideais de ar seco e céu limpo por vários dias, esses valores poderiam atingir teóricos -98°C, marcando o limite absoluto de frio natural na superfície terrestre.